Mr. Economista

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Herança vs. Self-Made:

O que os bilionários revelam sobre a história econômica de cada país

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Herança vs. Self-Made: o que os bilionários revelam
sobre a história econômica de cada país

Por Roger Ruann Flores de Souza | Mr Economista

Introdução

Um estudo da Forbes compilado pela Datapulse (junho de 2025) mostrou que Rússia e
China possuem 97% de bilionários classificados como self-made, enquanto países da
Europa Ocidental, como Alemanha, Espanha e Bélgica, apresentam mais de 70%
herdados. O Brasil aparece no meio do caminho, com 56% herdada e 44% conquistada.

O que significa ‘self-made’?

Para a Forbes, self-made é quem não herdou diretamente a fortuna. Isso inclui tanto o
fundador de uma startup quanto empresários que obtiveram ativos em leilões estatais. Em
outras palavras: é uma origem não-herdada, não um atestado de meritocracia pura.

Rússia: a riqueza nascida do colapso soviético

Na União Soviética, a propriedade privada foi quase extinta e a herança limitada a bens
de baixo valor. Com o colapso de 1991, o programa de privatizações, em especial o
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banqueiros próximos ao Estado. Esses indivíduos, classificados como self-made, são
produto de ruptura política e de oportunidades estatais.

China: a primeira geração de bilionários

Na China maoísta não havia patrimônio privado significativo. Apenas com as reformas de
Deng Xiaoping a partir de 1978 surgiu espaço para a iniciativa privada. Os bilionários
chineses de hoje são a primeira geração de grandes fortunas privadas desde 1949.

O Estado leva tudo quando se morre?

É intuitivo pensar que, em países comunistas, o Estado confisque heranças ao
falecimento de alguém. Isso de fato ocorreu no passado, mas hoje ainda é uma incógnita,
pois o regime é altamente centralizado. Diante de déficits públicos crescentes e baixa
transparência nos dados, não se pode descartar mudanças de regra no futuro. A altíssima
taxa de self-made em China e Rússia decorre do fato de que, por décadas, não existia
capital privado acumulado para ser transmitido.

Europa Ocidental: a força das dinastias

Países como Alemanha, Espanha e Bélgica não passaram por rupturas semelhantes no
século XX. Famílias empresariais mantiveram fortunas ao longo de gerações, utilizando
holdings, fundações e mecanismos de sucessão, mesmo diante de impostos elevados.

Estados Unidos: o meio-termo

Nos EUA, cerca de 73% dos bilionários são self-made, fruto de um ambiente
empreendedor dinâmico. Mas ainda existem famílias tradicionais, como Walton, Mars e
Koch, mostrando a convivência entre inovação e continuidade.

Brasil: entre a ruptura e a continuidade

O Brasil surge com 56% herdada e 44% self-made. Aqui, a sucessão patrimonial enfrenta
dois desafios: (1) custos relevantes de transmissão — ITCMD estadual até 8%, somado a
cartórios e advocacia pode atingir 20-30% do patrimônio; (2) falta de planejamento
sucessório estruturado, que dilapida fortunas.

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Conclusão

Os números mostram que riqueza não nasce apenas do dinamismo econômico, mas de
rupturas ou continuidades históricas. Dinheiro pode ser criado em uma geração, mas só
se torna legado quando há estrutura para atravessar o tempo.